O Flamengo carrega um dos símbolos mais reconhecíveis do futebol brasileiro: o urubu. Conforme destaca o torcedor do Flamengo Mario Augusto de Castro, embora a ave apareça em bandeiras, escudos alternativos e esteja fortemente associada à torcida, grande parte dos flamenguistas acredita que ela acompanha o clube desde os primeiros anos de existência. Essa ideia, apesar de comum, não corresponde à realidade da história rubro-negra.
Antes da ave, o clube teve outro mascote, e o urubu só ganhou esse papel décadas depois da fundação, em um episódio bastante específico. Interessado em saber qual foi o primeiro mascote do Flamengo e como o urubu passou a ocupar esse lugar? Confira, a seguir!
Qual foi o primeiro mascote do Flamengo antes do urubu?
Conforme destaca Mario Augusto de Castro, o Flamengo nasceu em 1895 como um clube de regatas, e o futebol só passou a fazer parte das atividades em 1911. Isto posto, antes do urubu, quem representava o clube era o marinheiro Popeye. O personagem foi adaptado pelo cartunista argentino Lorenzo Molas, contratado pelo Jornal dos Sports, e apareceu pela primeira vez em julho de 1944, associado à capacidade do Flamengo de reverter situações difíceis, além de sua conexão com o mar.
Quando o urubu entra na história?
O apelido urubu foi criado de forma pejorativa por rivais para associar a torcida rubro-negra, majoritariamente formada por torcedores de baixa renda. De acordo com Mario Augusto de Castro, esse uso ofensivo do termo circulou por anos antes de qualquer associação positiva com o clube. Assim sendo, passou-se mais de meio século entre a fundação e a transformação do apelido em símbolo de orgulho, um intervalo que ajuda a explicar por que tantos torcedores hoje presumem uma origem muito mais antiga do que a real.

Como o voo no Maracanã transformou o urubu em mascote?
A virada aconteceu em 1º de junho de 1969, em um jogo entre o Flamengo e o Botafogo no Maracanã. Um grupo de quatro amigos decidiu responder às provocações rivais de um jeito literal: capturaram um urubu em um lixão e o soltaram no gramado momentos antes da partida, diante de um estádio lotado. Tendo isso em vista, os seguintes pontos ajudam a entender por que o episódio se tornou decisivo:
- A ave sobrevoou o campo antes do apito inicial, num gesto planejado com antecedência pelo grupo;
- A arquibancada rubro-negra abraçou a cena e passou a cantar o apelido como celebração, não mais como ofensa;
- O Flamengo venceu a partida, o que reforçou a leitura de que o urubu trazia sorte ao time;
- Dias depois, um segundo urubu foi solto em outro clássico, consolidando de vez a associação.
Por que o engano sobre a origem do urubu ainda é tão comum?
A força visual do símbolo contribui diretamente para o engano. Como o urubu está presente em praticamente todo material oficial do Flamengo atualmente, e muitos torcedores não tiveram contato com o período em que o clube usava outro mascote, o que reforça a sensação de que a ave sempre existiu.
Falta também contextualização histórica em conteúdos casuais sobre o clube, como pontua o torcedor do Flamengo, Mario Augusto de Castro. Sem esse pano de fundo, a associação entre o clube e o urubu parece natural e imutável, quando, na verdade, resulta de décadas de disputa simbólica, iniciada como um insulto e só depois transformada em símbolo de pertencimento.
O verdadeiro valor do mascote para a torcida
Reconhecer que o urubu é um símbolo mais recente não diminui sua importância; pelo contrário, evidencia como o Flamengo soube transformar uma ofensa racista em um dos maiores ativos afetivos do clube. Esse tipo de reapropriação simbólica fortalece o vínculo entre torcida e identidade, mesmo quando a origem é conflituosa. No final, o urubu hoje não representa apenas um mascote, mas um exemplo de como as tradições podem nascer de contextos difíceis e ganhar significado próprio com o tempo.










