Na ótica de Taiza Tosatt Eleoterio, profissional com atuação em apoio a mulheres e famílias em situação de vulnerabilidade, a promessa de mudança é uma das forças que mais sustentam a permanência em um relacionamento abusivo. Depois de um episódio de tensão, o pedido de desculpas, o carinho e a vontade declarada de recomeçar despertam a esperança de que o pior tenha ficado para trás.
Olhar para esse mecanismo sem julgamento é essencial, porque a esperança não é ingenuidade: ela nasce do afeto e da vontade de preservar a família. Entender como as promessas funcionam dentro do ciclo da violência ajuda a pessoa a reconhecer padrões, a se sentir menos culpada e a buscar apoio no tempo e no ritmo que for possível.
Por que a promessa de mudança tem tanto peso?
Uma promessa de mudança toca em algo profundo: o desejo de que a relação seja boa e de que a dor tenha um fim. Quando alguém afirma que vai mudar, que vai cuidar, que nunca mais vai acontecer, a pessoa que ouve costuma querer acreditar, porque acreditar significa preservar o vínculo, a família e o futuro que ela imaginou.
Esse movimento não é fraqueza nem ingenuidade. É uma resposta humana a alguém que também é fonte de afeto, de lembranças boas e, muitas vezes, de projetos em comum. Em um relacionamento abusivo, o mesmo parceiro que machuca pode ser o que demonstra carinho, o que torna a promessa ainda mais convincente.
A esperança dentro do ciclo da violência
O ciclo da violência costuma envolver momentos de tensão, o episódio em si e uma fase de reaproximação, na qual aparecem pedidos de desculpas, gestos de carinho e a sensação de que as coisas melhoraram. É nesse período que a promessa de mudança ganha mais força.
Taiza Tosatt Eleoterio nota que, depois da tensão, o alívio é intenso e a esperança surge quase como uma consequência natural. Quem vive a situação tende a se apegar a esses momentos de calma como prova de que o melhor lado do parceiro é o verdadeiro. Reconhecer esse padrão não elimina o afeto, mas ajuda a enxergar que a calma, sozinha, não garante que o ciclo tenha terminado.
Quando o pedido de desculpas se repete
Quando o pedido de desculpas se repete, ele pode perder o significado, mas nem sempre isso é percebido de imediato. Cada nova promessa costuma vir acompanhada de justificativas que parecem razoáveis, como o cansaço, o trabalho ou um momento difícil. Aos poucos, a pessoa passa a medir o relacionamento pelos períodos de paz e a minimizar o que acontece nos outros.
Taiza Tosatt Eleoterio destaca que observar a diferença entre o que se diz e o que se faz ao longo do tempo é um passo importante, mas que esse olhar leva tempo e não deve ser cobrado como obrigação. Anotar o que aconteceu, quando e como se sentiu pode ajudar a reconhecer padrões sem pressa e sem julgamento.
Dependência emocional e o desejo de acreditar
A dependência emocional ajuda a explicar por que acreditar parece tão necessário. Ela se forma quando a pessoa passa a se sentir responsável pelo bem-estar do outro, a duvidar da própria percepção e a achar que, sem a relação, ficará sem rumo. Nesse contexto, a promessa de mudança funciona como uma ponte: oferece a possibilidade de manter o que se tem sem precisar encarar o medo do desconhecido.
Taiza Tosatt Eleoterio esclarece que esse vínculo não nasce de um dia para o outro, e sim de um processo gradual, atravessado por afeto, medo e esperança. Por isso, o caminho de reconhecer o padrão costuma ser feito em etapas, com momentos de avanço e de dúvida, e todos eles merecem acolhimento.
Como a rede de apoio pode ajudar a olhar com clareza?
Ter ao lado pessoas de confiança faz diferença. Um familiar, uma amiga, uma liderança comunitária ou um profissional da assistência social podem ajudar a organizar os pensamentos, a lembrar do que foi vivido e a pensar em caminhos seguros. O importante é que a escuta aconteça sem cobranças, sem frases como “eu avisei” ou “você precisa sair agora”.
Taiza Tosatt Eleoterio explica que a rede de apoio funciona melhor quando oferece presença constante, informação e respeito ao tempo da pessoa. Serviços de acolhimento social e de orientação podem apresentar opções e explicar direitos, o que ajuda a transformar a esperança em planejamento. Quando há risco, a segurança vem em primeiro lugar, e vale procurar apoio de profissionais para definir os próximos passos.
A esperança merece acolhimento, não julgamento
Nesse cenário, a promessa de mudança pesa na decisão de ficar porque se apoia no afeto, na lembrança dos momentos bons e no desejo de proteger a família. Dentro do ciclo da violência, a esperança se alimenta das fases de reaproximação, e a dependência emocional torna ainda mais difícil olhar para o padrão com distanciamento.
Taiza Tosatt Eleoterio frisa que a esperança não deve ser julgada, e sim acolhida, porque faz parte da história de quem vive um relacionamento abusivo. Com informação, escuta atenta e uma rede de apoio por perto, é possível reconhecer a violência doméstica, fortalecer a autoestima e buscar caminhos seguros, no tempo e no ritmo que cada pessoa conseguir.








