Diante das mudanças que atravessam a forma de viajar, uma nova motivação ganha força entre quem busca fugir do óbvio: erguer os olhos para o céu. Daugliesi Giacomasi Souza, fundadora da DGdecor, acompanha esse interesse crescente pelo astroturismo, segmento que já deve movimentar cerca de US$ 400 milhões globalmente até 2030, segundo projeções do setor. No Brasil, ao menos 35 parques já reúnem condições reconhecidas para observação astronômica, e o Parque Estadual do Desengano, no Rio de Janeiro, viu o turismo local crescer 300% depois de se tornar o primeiro Parque de Céu Escuro certificado da América Latina.
Prepare-se para entender melhor o que torna um destino ideal para observar as estrelas e por que essa experiência virou sinônimo de descanso para tantos viajantes.
O que caracteriza o astroturismo?
O astroturismo reúne viagens motivadas pela observação de fenômenos celestes, como estrelas, planetas, chuvas de meteoros e eclipses, geralmente realizadas em locais remotos, com baixa poluição luminosa e infraestrutura natural preservada. A modalidade combina elementos de ecoturismo, turismo científico e turismo de experiência, e costuma acontecer dentro de parques nacionais, reservas ambientais, observatórios e até planetários equipados para receber visitantes durante a noite.
Esse tipo de experiência, como relata Daugliesi Giacomasi Souza, ganhou impulso adicional depois que produções audiovisuais sobre o espaço e o compartilhamento de imagens astronômicas nas redes sociais despertaram curiosidade em um público que talvez nunca tivesse considerado esse tipo de viagem antes. Aplicativos de identificação de estrelas e constelações, além de binóculos e telescópios portáteis, tornaram a prática acessível mesmo para iniciantes sem qualquer formação técnica em astronomia.
Os destinos brasileiros que já entraram no mapa mundial
O Parque Estadual do Desengano, conhecido como Cidade das Estrelas, abriga o primeiro Parque de Céu Escuro certificado internacionalmente na América Latina, conquista que colocou a região no radar de visitantes de países como Suíça, Holanda e Estados Unidos. Chapada Diamantina, na Bahia; Serra da Canastra e Serra do Brigadeiro, em Minas Gerais, e Chapada dos Veadeiros, em Goiás, completam a lista de destinos nacionais com céu limpo o suficiente para observar a olho nu a Via Láctea e objetos celestes de baixa luminosidade, como nebulosas e galáxias distantes.

Segundo aponta Daugliesi Giacomasi Souza, o Instituto Entre Parques já desenvolveu um índice específico para medir o potencial astroturístico de 75 parques nacionais brasileiros, avaliando fatores como iluminação artificial, altitude e acesso para visitantes. Esse tipo de metodologia técnica ajuda a orientar tanto políticas públicas de preservação quanto investimentos privados em hospedagem e infraestrutura voltada especificamente para esse público crescente.
A poluição luminosa como obstáculo e oportunidade de turismo
A iluminação artificial das grandes cidades ofusca a maior parte dos astros visíveis a olho nu, tornando a observação do céu noturno uma experiência cada vez mais rara para quem vive em centros urbanos densamente povoados. Esse mesmo problema, quando resolvido, transforma-se em vantagem competitiva para pequenos municípios e áreas de conservação, que passam a atrair visitantes justamente pela escassez de luz artificial em suas regiões.
Essa inversão de valor, na percepção de Daugliesi Giacomasi Souza, já motivou municípios inteiros a adaptar a própria iluminação pública para conquistar certificações internacionais de céu escuro, reconhecendo o potencial econômico direto dessa mudança. Cidades que antes viam a falta de infraestrutura urbana como desvantagem passam a tratar a escuridão preservada como um ativo turístico raro e cada vez mais valorizado.
Por que olhar para o céu virou sinônimo de descanso?
Pesquisas recentes sobre comportamento de viagem revelam que a maioria dos viajantes ao redor do mundo se sente desconectada da natureza no dia a dia, e boa parte já planeja viagens especificamente para vivenciar fenômenos naturais que dificilmente encontrariam na rotina urbana. O astroturismo responde diretamente a essa demanda, unindo o desejo por desaceleração a uma experiência sensorial que remete a um gesto praticamente ancestral, repetido por gerações muito antes da existência de qualquer cidade iluminada.
Como pondera Daugliesi Giacomasi Souza, essa combinação entre ciência, contemplação e conexão com algo maior que o cotidiano imediato explica por que tantos viajantes descrevem a experiência como profundamente restauradora, mesmo sem qualquer esforço físico envolvido na atividade em si. Basta um céu limpo, um ponto de observação seguro e a disposição de esperar a escuridão revelar aquilo que a cidade sempre escondeu. Talvez o maior luxo do astroturismo seja justamente este: lembrar que basta olhar para cima para se sentir, ao mesmo tempo, pequeno e parte de algo imenso.










