Por que o lixo no fundo do mar é mais grave do que parece?

Marcello José Abbud
Marcello José Abbud

Como elucida Marcello José Abbud, empresário e especialista em soluções ambientais, a contaminação dos oceanos por resíduos sólidos é um dos problemas ambientais com maior distância entre a percepção pública de sua gravidade e a realidade documentada pela ciência. O que aparece nas imagens de praias cobertas de plástico ou de tartarugas enredadas em sacolas representa apenas a fração superficial e visível de um problema que se estende pelos fundos marinhos, pelas correntes oceânicas profundas e pela cadeia alimentar marinha em toda sua extensão vertical.

Aqui, você entenderá melhor por que o lixo no fundo do mar representa uma ameaça de dimensões ainda maiores do que aquelas que chegam ao conhecimento público.

O que chega ao fundo do mar e como permanece lá?

A maior parte dos resíduos que entram nos oceanos não permanece na superfície. Materiais mais densos do que a água afundam diretamente após o descarte, enquanto outros se tornam progressivamente mais pesados à medida que absorvem água, acumulam bioincrustações de organismos marinhos ou se fragmentam em partículas menores. Estudos oceanográficos estimam que apenas uma fração dos resíduos plásticos que entram nos oceanos é encontrada na superfície, sugerindo que a maior parte já se encontra nos fundos marinhos ou em suspensão nas camadas intermediárias da coluna d’água.

Conforme elucida Marcello José Abbud, o fundo do mar apresenta condições físicas e químicas que tornam a degradação dos materiais plásticos extremamente lenta, muito mais do que nas praias ou na superfície oceânica, onde a radiação ultravioleta e as variações de temperatura aceleram a fragmentação. Em ambientes de baixa temperatura, alta pressão e ausência de luz solar, plásticos e outros materiais sintéticos podem persistir por séculos sem degradação significativa, acumulando-se progressivamente nos sedimentos marinhos em concentrações que já são documentadas em regiões remotas do planeta.

Marcello José Abbud
Marcello José Abbud

Os impactos sobre os ecossistemas de fundo

Os ecossistemas de fundo marinho abrigam uma biodiversidade extraordinária e ainda pouco conhecida, incluindo corais de águas frias, esponjas, equinodermos e uma diversidade de invertebrados que formam a base de cadeias alimentares que se estendem até as espécies comercialmente exploradas pela pesca. A deposição de resíduos sólidos sobre esses ecossistemas causa impactos físicos diretos, como o soterramento de organismos sésseis que não conseguem se deslocar, e impactos químicos indiretos, pela liberação progressiva de aditivos plásticos e contaminantes associados aos resíduos depositados.

A partir do que analisa Marcello José Abbud, a perturbação dos ecossistemas de fundo por resíduos sólidos tem consequências que se propagam pela cadeia alimentar marinha de formas que a ciência ainda está mapeando. Organismos que habitam o fundo são consumidos por espécies de maior porte, que por sua vez são capturadas pela pesca comercial e chegam à mesa dos consumidores com concentrações de microplásticos e contaminantes químicos acumulados ao longo da cadeia trófica. De fato, a conexão entre o resíduo descartado inadequadamente em uma cidade costeira e o peixe consumido em outra região é mais direta do que a maioria das pessoas percebe.

A dificuldade de remediar o que está no fundo do mar

Ao contrário da poluição em praias e rios, a remoção de resíduos dos fundos marinhos é tecnicamente complexa, operacionalmente arriscada e economicamente inviável em grande escala com as tecnologias disponíveis atualmente. As operações de limpeza de fundo são realizadas localmente por mergulhadores voluntários e por embarcações equipadas com dragas, mas sua capacidade de impacto é mínima diante do volume de material acumulado nos sedimentos oceânicos ao redor do mundo.

Para Marcello José Abbud, a conclusão prática dessa realidade é que a prevenção é incomparavelmente mais eficiente do que qualquer tentativa de remediação dos fundos marinhos contaminados. Dessa forma, investir na melhoria dos sistemas de gestão de resíduos nas cidades costeiras, na eliminação de resíduos plásticos de uso único e na estruturação de sistemas de coleta que impeçam o aporte de resíduos aos oceanos é a única estratégia com potencial de impacto real sobre um problema cuja remediação, uma vez instalada nos fundos marinhos, está muito além das possibilidades técnicas atuais.